O primeiro mês na Inglaterra…

“Turistar” e morar em um lugar são dois conceitos bem distintos. Mesmo tendo vindo ao Reino Unido outra vezes, nada se compara à experiência que estou tendo agora.

Nem parece, mas hoje faz um mês que entrei no avião e saí do Brasil sem a passagem de volta comprada. E aqui estou na terra da Dona Beth. E posso dizer que, sim, sinto falta do Brasil. Não da corrupção, da falta de educação, do caos, do calor. Sinto falta do calor humano brasileiro, aquele “jeitinho” acolhedor que, acreditem, só nós temos. Família e amigos também fazem muita falta. E, acreditem se quiser, sinto falta de falar Português!! Falar uma língua estrangeira 24 horas por dia cansa! Meu cérebro começa a dar aquelas telas de “error” do Windows e eu começo a esquecer as palavras. Sério! Ainda bem que existe áudio no Whatsapp e Skype 😀

Mas tirando esses pequenos detalhes…não posso reclamar desse momento que estou vivendo. Inclusive, há alguns pontos que gostaria de compartilhar.

  1. Os ingleses são, de fato, pessoas muito educadas. Todas as piadas que fazem com esse jeito educado do inglês tem fundamento!!!
  2. Tem muçulmanos e chineses/japoneses/coreanos (vai saber?) para todos os lados. Aqui em Birmingham, mulher de burca não é algo fora do comum.
  3. Esse povo ama uma pimenta. E um curry!
  4. Aparentemente, para os europeus, eu sou uma espécie de ET por colocar açúcar no café. Na verdade, por colocar açúcar em qualquer coisa.
  5. Eu também sou ET por detestar chá e repudiar a ideia de beber leite puro.
  6. Mas nada me convence de que os estranhos são eles. Até porque, quem come feijão no café da manhã? Para quem não sabe, o típico café da manhã britânico é composto por torradas, ovo, bacon, linguiça, feijão, cogumelos, tomate e batata. E depois eu que sou estranha…
  7. Não importa quanto tempo eu passe aqui, jamais me acostumarei com o trânsito inglês. Eu SEMPRE olho para o lado errado quando vou atravessar. E quando estou dentro de um carro ou ônibus, fica aquela sensação de que algo não está certo, pois meu cérebro fica registrando que estou do lado errado da pista.
  8. Nunca pensei que fosse falar isso, mas fazer mercado aqui é maravilhoso. Legumes e verduras estão sempre limpos, cortados e embalados para facilitar a sua vida. E é tudo tão barato. Exceto carnes…E aqui é super comum você ver alguém saindo do mercado com suas compras na mão, pois – pasmem! – a sacolinha aqui é paga e faz você pensar algumas vezes se vale mesmo a pena pagar £0.05 por algo que você pode carregar na mão ou colocar no bolso. Ainda sobre mercados…o que são os caixas express em que você mesmo registra sua compra e faz o pagamento? A primeira coisa que veio à minha cabeça quando me deparei com esse sistema foi: “Isso NUNCA iria funcionar no Brasil”. Mas aqui…funciona que é uma beleza. Eu ainda me enrolo na hora de scanear os produtos, pagar e ensacar (ou seja, em todo o processo haha)… mas é bem melhor. Até porque, tem mercados que não há a opção de alguém fazer isso por você…
  9. Por falar em comprar… o que é comprar online? Amo o fato de que você pode comprar absolutamente tudo pela internet. Incluindo alimentos. O que facilita muito a vida, especialmente se você não tem como carregar milhões de coisas sozinha. E roupas!!! Em algumas lojas você pode comprar e, se não gostar, pode devolver o produto e ter seu dinheiro de volta. É simplesmente lindo. E por falar em compras online… sim, eu comprei café pela internet!! Porque, sim, o café daqui é uma porcaria.
  10. E o clima? Tem dias que eu levanto, olho pela janela e penso no dia lindo que está lá fora. Mas nunca se engane com  um céu azul e ensolarado. O look básico do outono inclui óculos escuros e um bom casaco. Sério. Não subestimem o clima inglês. Normalmente, está sempre muito mais frio do que o inverno carioca e sempre tem uma nuvem cinzenta e imensa escondidinha em algum lugar pronta para deixar algumas gotinhas de chuva cair.
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Ruas de Birmingham, Reino Unido. É frio mas é lindo…

Mas de uma coisa eu tenho certeza: viver aqui é bom demais!!!

 

Você não sabe o quanto eu caminhei…

Se você for uma pessoa estranha como eu, provavelmente, deve ter lido o título desse post no ritmo da música do Cidade Negra. E nunca um trecho de música resumiu tão bem um evento na vida. Sim, eu participei de uma maratona!!! Não é piada. É sério! Nunca pensei que essa frase fosse sair da minha boca, mas eu participei de uma maratona! E ainda estou surpresa comigo mesma por ter conseguido esse feito.

Em Londres, o Instituto de Pesquisa sobre o Câncer (Cancer Research UK) organiza maratonas para arrecadar fundos que possibilitem pesquisas que podem salvar vidas. São 36 milhas caminhando pelas ruas de Londres, o que dá 42Km. A  Shine Night Walk ocorre durante a noite inteira. A maioria dos que participam da caminhada são familiares de pessoas que sofrem – ou sofreram – com o câncer. Há também os que vencerem essa doença tão devastadora e outros, assim como eu, que são simpatizantes à causa.

Quando meu amigo me perguntou se eu gostaria de participar da caminhada com a irmã dele e o namorado dela eu disse sim na hora. Antes de saber, é claro, quantos Km equivaliam 26 milhas. Eu passei por um processo de pânico e de “por que diabos eu disse sim?”, mas, no fim, eu sabia que era a coisa certa a fazer. Não apenas porque são pessoas importantes para mim e que, infelizmente, perderam a mãe recentemente, mas porque já estive na posição de “pseudo-pesquisadora” do câncer. “Pseudo” porque estava nos primeiros períodos da faculdade, a qual abandonei na reta final, pois descobri que não era pra mim, principalmente depois de entrar na ala hospitalar infantil com crianças em estado terminal. Acho que nunca fui forte o bastante para isso. Além disso, de alguma forma, participar da maratona pareceu algo certo, pela mãe dos meus amigos, pelas crianças da época do meu estágio, pelo filho de uma amiga e por uma pessoa super do bem que tinha recebido um transplante e que, na semana da caminhada, eu descobri que não tinha resistido. De algum modo, caminhar por 42 Km passou a ter muito mais sentido para mim.

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Shine Night Walk, o início.

E lá estávamos nós esperando a maratona começar. Algumas pessoas estavam beeem alegres. Muito alegres mesmo. Outras mais quietas. Algumas meio perdidas. Mas todos estavam, em teoria, prontos. E assim, por volta de 22:30, começamos a caminhar. A primeira milha foi tranquila. Quando chegamos ao primeiro pitstop (sim, tinha pitstop para salvar nossas vidas) já estava cansada e tentando buscar o motivo pelo qual eu aceitei fazer parte daquilo. Mais algumas milhas se passaram. O cansaço foi ficando imenso e nem aquelas ruas londrinas lindas me animavam.

Aí veio a chuva no meio da madrugada. E o frio. E o meu joelho começou o seu processo de se tornar similar a um balão (hello, tendinite). Em algum momento, no meio da madrugada, eu cogitei seriamente largar meus amigos ali e deitar em algum banquinho de uma praça qualquer. Mas resisti. Queria fazer aquilo pelo meu amigo, pela mãe dele, pelo Caio, pelo Edson… E aí eu comecei a pensar em outras coisas. Em como eu estava querendo desistir só porque estava cansada. Não que caminhar 42Km significasse resgatar alguma vida que se fora. Mas, simbolicamente, caminhar todo aquele percurso representava fazer algo por aqueles que, nem sempre, vão poder caminhar outro Km. E, então, eu parei de reclamar mentalmente e tentei focar em apenas continuar andando.

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Parte da Tower Bridge…Não, não tem foco…
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Vista da Tower Bridge…sim, continua sem foco…

E caminhando madrugada adentro, com frio e chuva, sem sentir mais os meus dedos do pé – que, por sinal, continuam roxos até hoje! – com meu joelho mega inchado, eu comecei a pensar nas outras milhares de pessoas que sofrem com o câncer. Fiquei olhando para todas aquelas pessoas que estavam caminhando com a gente e que carregavam o nome de suas “inspirações”. E fiquei pensando em quantas coisas nós podemos fazer para ajudar e não fazemos. A ideia principal da caminhada era de levantar fundos para pesquisas. E eu sei que nem sempre temos dinheiro para doar.  A vida é dura e a crise econômica está aí. Mas existem outras coisas que custam dinheiro algum. E, muitas vezes, a gente não faz nada porque estamos muito enrolados com nossas vidas. E, aí, nós nos esquecemos que poderia ser com a gente. E que seria bom se alguém tivesse um tempinho na agenda para doar sangue, um pouquinho de plaqueta. A gente fica pensando que se fosse com a gente, iríamos gostar de ter alguém que se dispusesse a ser doador de medula ou que seria legal se aquele fulano tivesse informado aos familiares que gostaria que seus órgãos fossem doados quando ele não precisasse mais deles. A gente fica pensando que, se fosse com a gente, iríamos gostar de receber uma visita no hospital, iríamos ficar felizes por saber que alguém fez algo pela gente. E, assim, vi o dia clarear…

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Ao fundo, Buckingham Palace. (Quase 11 horas de caminhada e vocês acharam mesmo que eu ia pensar no foco da imagem?)

Infelizmente, não consegui concluir os 42 Km. Meu joelho estava muito inchado, o que tornou impossível continuar a andar. Abandonei a maratona aos 37Km, depois de um pouco mais de 11 horas de caminhada, por volta das 9 e pouca da manhã, e, para mim, foi como ter chegado ao final (Só para constar – se eu estivesse no Rio de Janeiro, de acordo com o Google Maps, seria o mesmo que caminhar do centro de Bangu até a praia de Botafogo…só olhar no mapa). Mesmo não tendo ido até o Km 42, meu amigo, o mesmo que fez o convite, conseguiu uma medalha para mim e ela tem um valor muito especial.

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#ShineWalk

Mostra que, mesmo não podendo mais fazer nada pela mãe dele, ou pelo Caio ou pelo Edson, ou pelas crianças do hospital, eu ainda posso fazer algo para os que ainda precisam…seja doando dinheiro, sangue ou meu tempo. Não é preciso caminhar 42km todo dia para fazer a diferença. E, você? Qual vai ser sua maratona?

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Cartão super fofo que eu recebi da equipe da maratona… Aí vai uma tradução express…”Olá, Mariana. Sentimos muito por saber que você quase chegou à linha de chegada. Você é uma vencedora aos nossos olhos. Muito obrigada novamente. Esperamos que seu joelho melhore logo. Use sua medalha com orgulho!”

Fazendo as malas…

Nunca fui uma pessoa de carregar só o “essencial”. Sempre fico pensando no “e se?”. E se acontecer isso? E se acontecer aquilo? Normalmente, essas situações nunca acontecem, mas melhor prevenir do que remediar, não é mesmo? Por isso, minhas malas sempre foram imensas…

Mas dessa vez eu não queria levar minha casa inteira – e nem podia… Então, vi 305 mil tutoriais de como arrumar a mala. Aprendi muita coisa, pra falar a verdade. Uma delas foi uma super dica de organizar uma mala para 15 dias. Se a gente repete roupa no nosso dia-a-dia, por que não repetir roupa quando viajamos? (Acreditem, isso não é óbvio para todas as pessoas) Também achei super pertinente a dica do saco à vácuo. Foi uma verdadeira revolução na minha vida, principalmente para fazer casacos de inverno imensos se tornarem bem pequenos (e tem sacos que nem precisam de aspirador de pó!!!)

Até aí, tudo bem. Você tem toda uma ideia linda planejada na sua cabeça. Mas você precisa colocar tudo em prática. Aí é que entra o desespero. Porque, sim, Murphy faz hora extra comigo, e tudo acontece. Mas, graças a Deus, amigos estão aí para te ajudar nos momentos mais difíceis da sua vida, inclusive, lavando a sua roupa porque, é claro, a água tinha que acabar na sua casa na véspera da sua viagem.

Passada a leve crise histérica inicial, você, de fato, começa a colocar as roupas na mala. Tudo bem que você deixou em cima da cama só o que precisaria para os “15 dias”. A questão é que você olha para aquele mundo de roupas e depois para a sua tímida mala (que de tímida não tem nada, pois ela é rosa pink e imensa) e a realidade te estapeia na cara: não vai caber! Você aperta daqui, aperta dali…chama sua amiga que, às 3h da manhã, está literalmente deitada na sua mala para tentar fechá-la. E quando, finalmente, a fecha…vai pesá-la e…tcharam…você excedeu – e muito – o limite de peso permitido. Você quer chorar, espernear, dá a louca e levar só sua mala de mão.  E, às 4h da manhã, vencida pelo cansaço, você começa a tirar todos os “e se?”s da mala. Tira aquele casaco que você não usa, e que sabe que não vai usar nunca, mas, vai que? Tira aquele livro que, sabe Deus o motivo, você colocou na mala, ja que você tem um Kindle. Você tira o excesso e começa a perceber que, por qual motivo, causa, razão ou circunstância, você está levando umas coisas que, de boa, você não vai usar?

Na verdade, você começa a perceber que o problema é que a gente quer estar preparado para tudo. Quer ter todas as soluções para todo o tipo de coisa que possa acontecer.  Só que, às vezes, não é possível carregar tudo. E a gente começa a desapegar. E percebe que não dá pra ter medo do que vai acontecer. A gente precisa aprender a se adaptar, a se reinventar. E, para isso, é preciso haver espaço na mala. Não sei em que momento isso se tornou um post de auto-ajuda (risos), mas a verdade é essa. A gente precisa aprender a não ter medo dos “e se?”s da vida, do inesperado.ursinho

E, depois da mala fechada e daquela sensação de dever comprido, não se espante com as lágrimas que virão. Sim, elas virão, a cada amigo que você abraçar, a cada mensagem de boa viagem que você receber, ao sair de casa, ao se despedir da família, ao se perguntar se não está fazendo besteira, ao entrar no avião e descobrir que seu assento foi alterado e você está numa cadeira beeem mais confortável do que aquela da classe econômica (Murphy, de vez em quando, faz um break pra fazer um pipi). Seus amigos vão olhar pra você e vão mandar você parar de ser chorona (o que é meio impossível), mas você sabe que o choro é de felicidade. Mesmo com uma mala mais vazia, que ainda assim parece que está carregando um corpo dentro dela, você sabe que está pronta (talvez) para o que vier pela frente. Mesmo que para responder que no Brasil se fala português e não espanhol (fomos colonizados por Portugal, galera!), pra falar sobre a adaptação à uma cidade tão grande (gente, vocês já viram o tamanho do meu país?). Enfim, você percebe que fez bem em deixar algumas coisas para trás, em repensar seu catálogo de soluções imediatas, em não ter medo de se arriscar. Até porque, onde você colocaria as coisas novas que ainda tem pra viver nessa jornada?